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Publicado no Jornal Estado de Minas, Domingo, 09/04/2000

 

 

UMA REFLEXÃO SOBRE O FOCO DE ATUAÇÃO DA ÁREA DE

RECURSOS HUMANOS NO ATUAL CENÁRIO

  

Atualmente, mais que em qualquer época, diante dos desafios da competitividade, as funções, os objetivos e o nível de atuação de qualquer cargo ou especialidade dentro das organizações, precisam ser repensados e redesenhados. Esta constatação é bastante evidenciada já há alguns anos, principalmente na área de Recursos Humanos.

 Diversos modelos, desde inserção da área nas questões estratégicas, atuação como consultoria interna, transferência de funções do órgão para os gerentes das outras áreas até a terceirização, vêem sendo implementados.

 De qualquer forma, e isto não é privilegio só de R.H., um modelo ideal que dê efetivos resultados para as organizações neste atual contexto, esta ainda por ser construído. Talvez não se possa nem ao menos falar em modelo ideal. Esta premissa já não é mais aplicável nesta época de grandes questionamentos, mudanças aceleradas, rupturas e caos em que vivemos (vale aqui lembrar que no caos há uma ordem complexa e difícil de ser assimilada, mas que existe!).

 Esta situação tem gerado por vezes, principalmente nos profissionais da área, certa postura de “apatia e paralisação”, ansiedade, medos, tensões e “stress”, compreensíveis neste contexto.

 Neste artigo, o que nos propomos é fazer uma reflexão básica, focada em questões primordiais e simples, com o objetivo de estabelecer-se bases para o desenho de ações que possam alterar este atual estado de coisas.

 Vamos lá: a diretriz geral hoje dentro das organizações é gerar-se resultados, não é? Para que isto aconteça, entendemos que primeiro temos que responder a seguinte questão: O que é o fator humano na sua essência?

 Como espécie, três são as características fundamentais que vão distingui-la de quaisquer outras, por mais evoluídas que sejam. A primeira é que o ser humano domina uma linguagem sofisticada, analógica e simbólica. Através da palavra ele pode sintonizar-se com o outro, quer seja nos significados, nas emoções, nos propósitos e no concatenamento das ações. Esta mesma característica é que lhe permite,  liberto do tempo, exercer a reflexão. Ou seja, voltar ao passado, analisar atos, ações, realizações ou projetar-se no futuro criando bases para construção, no presente,  de sua evolução e a evolução de tudo que aí está, ou estará.

 Outra característica fundamental é o que o Homem é “destinado” ao trabalho, ao contrário do que pensam muitas organizações. Trabalho aqui, no sentido de transformar o meio em que vive, construindo, como já dissemos, o mundo, a si próprio e ao outro. Este trabalho pode ser desde algo concreto, como um produto ou serviço, até a concepção do abstrato, como por exemplo, uma poesia.

 A terceira é a de que o ser humano é um animal social. Por mais difícil que sejam as relações, é só a partir da recorrência com o outro, que o ser sente-se ser e passa a fazer sentido. O gosto de usar a Internet e o celular nos sugere metaforicamente esta necessidade do contato e da troca com o outro.

 Aqui já cabe uma pergunta: as organizações reconhecem essas obviedades, educam, estimulam e facilitam que seus funcionários, humanos que são, possam se comunicar adequadamente, participarem, criarem e serem responsáveis por suas criações, interagindo como seres sociais que são?

 O que percebemos no geral, é  que  os funcionários são meros executantes de tarefas pré-determinadas, isolados nos diversos subsistemas empresariais (diretorias, áreas, gerências, etc.) atuando como se não pertencessem a um sistema humano, onde predomina o medo de relacionar, sugerir, criar e até de mudar o seu próprio trabalho. Ou seja: a grande maioria das empresas não cria as condições necessárias para que o ser se exerça na sua ontogênese e filogênese.

 Embora a nossa espécie seja uma criança, existindo neste planeta e dotado das características aqui apontadas, há um tempo entre 50 a 100 mil anos, as formigas e abelhas, como exemplo, já estão aqui há mais de 50 milhões de anos e ainda não criaram um mundo de maravilhas tecnológicas como o nosso mundo humano. Óbvio, suas características não são as nossas!  Porém, conforme citado por Prigogine em sua carta às Futuras Gerações (Folha de São Paulo, 03/01/2000)...”Não é coincidência que nas grandes colônias de formigas ou térmites os insetos individuais se tornem cegos. O crescimento populacional transfere a iniciativa do indivíduo para a coletividade...” Ou seja, da sua forma, as formigas também necessitam de estruturas coletivas: são insetos sociais. E o que dizer do homem que é eminentemente um ser social?

 É lógico que ainda hoje, na sua neonatez, o ser humano precisa de muita consciência e evolução para resolver tantos problemas e atrocidades criadas, as quais não é nem necessário citar aqui.

 James Joyce descreve bem, através de um de seus personagens do livro “O Retrato de um Artista Enquanto Jovem” essa dura realidade: “Bem vinda sejas ó vida. Vou, pela milionésima vez, ao encontro da realidade da experiência, para moldar na forja da minha alma a consciência ainda não criada da minha raça!”. Precisa dizer mais?

 A partir destas constatações, é que devemos refletir sobre a atuação de R.H.

 Vemos como necessário, construir-se projetos e ações balizadas nas seguintes questões: se quisermos resultados, o que deve ser feito que possibilitará às pessoas se relacionarem, se comunicarem, tendo autonomia para criar e transformar o trabalho,  sendo responsáveis pelas suas reflexões sobre os resultados conseguidos?

 Ao analisarmos o encarte da edição 695 da Revista Exame, As 50 Melhores Empresas para se Trabalhar (já na sua terceira edição), percebemos que muitas empresas que lá estão presentes e que são benchmark em termos de resultados, trabalham com programas que apontam na direção das premissas do humano aqui colocadas.

 A possibilidade de executar trabalhos em equipes, grandes desafios a serem vencidos, com o conseqüente reconhecimento das realizações dos grupos, são fatores mencionados. Para dar um exemplo, na pesquisa referente ao grupo Gerdau, é citado como um dos principais atrativos, o seu “sistema de gestão por células (ou times), que garante agilidade no reconhecimento e valorização do trabalho” dos funcionários.

 Um outro exemplo interessante é o caso do Banco do Brasil que em 1997, com seu programa de Competitividade e Excelência, envolvendo de forma participativa 16.000 funcionários, os quais tiveram treinamentos e oportunidades de gerarem idéias e soluções para melhoria de performance das agências e do banco, conseguiu de retorno o equivalente a 10% de seu lucro em todas suas atividades. Isto representou algo em torno de  R$ 79 milhões. (Revista Exame 07/04/99)

 No geral entendemos que prospectar estratégias e metas nos diversos órgãos, propor programas participativos com  resultados a serem atingidos, criar fórum e metodologia de tratamento de sugestões e inovações, organizar, educar (principalmente sobre o que é ser humano) e desenvolver as equipes em ferramentas e técnicas de trabalho em equipe é, nos parece, um bom desafio para a área.

 Porém, sabendo  que gerar esta conscientização sobre o humano nas nossas empresas não seja lá uma tarefa muito fácil, acreditamos que em principio poderia se estar desenvolvendo projetos pilotos simples, objetivos e poucos dispendiosos que se fundamentassem nas características do humano. Estes projetos, (na linha dos já citados neste artigo), com coletas de dados e medição de resultados práticos, acreditamos seriam argumentos “inquestionáveis” na sensibilização dos dirigentes e fundamentais na remoção das esperadas e naturais resistências. 

 Quanto mais se caminhar neste sentido, mais o RH estará humanizando o ser, tornando-o dono de sua liberdade natural e inata e tendo como conseqüência uma maior sinergia e melhores resultados no interior das organizações.

 Se se conseguir avançar nesta direção, a mudança necessária estará acontecendo e estaremos então dando a César o que é de César e ao homem o que é inato e necessário ao Homem!

 

José Antônio Gomides: Administrador, Psicólogo,

 Sócio e Consultor da Parcis Consultoria e Recursos Humanos.